




a N O T Í C I A
Ainda sinto meu coração parar quando lembro da voz do médico, preocupado. Durante uma ultrasonografia de rotina, aos 8 meses, recebemos a notícia de que a nossa pequena Gabriela apresentava um problema. Seu coraçãozinho, estava um pouco desviado para a direita. Algo o havia empurrado e precisaríamos fazer mais exames para diagnosticar o problema. Fizemos ressonância magnética, exame no coração e finalmente fomos nos consultar com o diretor da UTI Neonatal da Perinatal de Laranjeiras. Dr. Jofre Cabral. Pediatra e nosso anjo da guarda. Ele nos alertou sobre a dificuldade, as necessidades e os riscos imensos que ela corria. Foi muito objetivo sobre o que iria acontecer e não tentou amenizar nada. No fundo, achamos muito melhor assim, ele ser extremamente claro e pintar o quadro da cor que de fato era.
De alguma maneira, o que ele fez acendeu na gente uma luz ainda mais forte, que desde aquela ultrasonografia, trabalhávamos cada dia para encontrar. Depois daquela consulta, nunca mais fui a mesma. De lá, saí em lágrimas, com o coração apertado, sabendo que o que vinha pela frente não seria nada fácil. Gabriela tinha uma Hérnia Diafragmática e suas chances de nascer, operar e sair tudo bem não era nada animadora. Dr. Jofre nos deu 50% de chance de sair tudo muito bem. Esse número não saiu da minha cabeça por muito tempo. Nós procurávamos rezar e compreender aquela situação, tentando nos manter fortes para suportá-la. A espera foi o mais difícil. Esperar pelo nascimento e saber como as coisas iriam ficar. Esperamos depois do diagnóstico, por 1 mês para o nascimento. Uma tortura psicólogica imensa...
o N A S C I M E N T O
Li pouco sobre o problema da Gabriela, para me privar de pensamentos negativos. Aquilo que li, vi que poucas crianças tiveram sucesso. Não tive mágoa nem ódio, mas muito medo. Me conformei me preparando para a luta. Gabriela nasceu no dia 9 de abril, às 14h55. Nasceu bem para a sua patologia. O que já era um ponto a favor. Ela teve de ser entubada na sala de cirurgia, mas ainda pude ouví-la dar um chorinho acanhado. Foi muita emoção... minha expectativa era tão grande que achava que não iria escutar seu choro. Antes do pediatra levá-la para a UTI, pedi para ver minha filhinha e muito rapidamente me mostraram um rostinho lindo, com os olhinhos fechados e inchadinhos... imagem que nunca mais vai sair da minha mente.
Foi esse o único momento que pude conhecer Gabriela, muito pouco para quem algumas semanas atrás, esperava por esse momento para pegá-la no colo e olhar seu rostinho. Esperei tanto para sentir meu bebêzinho e o máximo que pude fazer, foi olhar seu perfil de longe, por alguns segundos. Mas sabia que era o melhor para ela.
E assim levaram Gabriela de mim, depois de 9 meses fazendo parte do meu corpo, da minha vida, da minha respiração.
a L U T A
No dia seguinte estávamos nós, eu e Mário de pé, ao lado da encubadora. E só saímos de lá, praticamente, 15 dias depois. Foi muita dor, choro, sofrimento. Mas também muita esperança e alegria pelas notícias boas que nos eram dadas a cada dia. Dentro do seu quadro delicado, Gabriela nasceu bem. Foi entubada e dois dias depois estava sendo operada. Momento difícil demais, ver sua pequena filhinha, que você nem pode pegar nos braços, sendo levada para ter a chance de viver, dentro da incubadora. Tão frágil, tão linda, tão perfeita. Foi um momento emocionante quando ela se foi pelo elevador e foram 3 horas angustiantes até o aviso de que tinha terminado e ela estava bem. Agora era esperar o pós operatório, fase delicada e muito difícil.
Na UTI, podíamos entrar e ficar o tempo que quiséssemos, respeitando apenas alguns poucos horários restritos, fora claro, a noite. Esse era um momento difícil, dar tchau para minha bebêzinha. Chocávamos a Gabi como a galinha choca seu ovo. Ficávamos ali, durante horas, simplesmente observando seu rostinho, monitorando seus aparelhos, rezando, cantando, pedindo, chorando e sorrindo para ela.
É triste vc ver seu filho todo entubado com agulha para tudo que é lado... em um momento da vida dele, que a calma, a tranquilidade, o sossêgo sõ tão importantes. Eu queria tirar ela dali e fugir para casa com ela nos braços. Deitá-la no seu berçinho, dar seu banhinho, trocar sua fraldinha, cuidar do seu choro... ficar sem dormir, me cansar. Tudo que fiz pela minha Carolina, queria poder dar a Gabriela. Logo.
Gabriela lutou pela sua vida e ficamos sempre junto dela. Nossa família, irmãos, pais, cunhados, sobrinhos, foram fundamentais para segurar a barra, antes e depois do nascimento. Nunca nos sentimos sozinhos. Os amigos... ah, os amigos... descobrimos que somos afortunados e que nada daquilo seria em vão. Amigos dos avós, dos irmãos, amigos dos amigos, amigos-irmãos, amigos-mãe... uma corrente de muita luz e energia positiva. Sabemos que sem isso, não teríamos conseguido. Foram eles, parentes, amigos próximos e distantes, alguns nem conhecemos... que salvaram Gabriela. Não duvidamos disso.
Deus quis nos dar uma filha guerreira. Precisávamos passar por tudo isso para merecer Gabriela. Ela se recuperou muito bem. A cada dia um progresso. Lento mas positivo. Eu cantava para Gabriela e não saí do seu lado. A barra pesava pois sofríamos por todas as crianças que mesmo em um período da vida tão curto, aprendemos a amar e querer bem, tanto quanto nosso filho. Resávamos por todos os pais, enfermeiros, médicos e crianças, todos guerreiros. E assim foi. Saímos da UTI 1 para a UTI2 e depois, promovidos para a UTI3, quase a porta de saída para casa.
a V I T Ó R I A
No dia 23 de abril, dia de São Jorge guerreiro, nossa filhinha teve alta. Trouxemos o tesouro para casa, apaixonados pela mocinha que nos deu uma lição de vida. Gabriela mostrou o verdadeiro sentido de união. Amigos e familiares, desconhecidos... tantas orações, tantas promessas... nem sabemos como agradecer.
Tenho a certeza que a Gabi nos transformou como pessoa. Ter um filho e não poder pegá-lo nos braços. Ver seu bebê recém-nascido fazer uma enorme cirurgia, estar ligado a fios e mais fios, sonda, respirador, catéter... e imaginar que se estivesse em casa estaria cheio de cuidados especiais, nada que lhe machucasse, nenhum som alto, nenhuma luz acesa demais... Ninguém pode ahar que sai disso sem se transformar. Gabriela nos transformou. Depois de 13 anos da felicidade de ter Carol, hoje revivemos a felicidade com a Gabi.
a H I S T Ó R I A
Hoje, Gabi está em casa e já com 1 mês e 15 dias. Linda. Delicada e apaixonante. Nosso bebê cor-de-rosa, está com a maninha, papai e mamãe. Lembraremos para sempre desses momentos de luta e o quanto essa menina quis ficar com a gente. Gabriela é uma benção para nós todos. mamãe Ruth, papai Mário & maninha Carolina.
Hoje, dia 25 de abril, vou começar essa história da Gabriela e nossa também.
Um comentário:
Já estou chorando...imagina quando for lendo mais para frente! Amo vocês!
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